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Cáfila Sounds é uma marca de criação de trilhas sonoras experimentais para filmes de arquivo. Gravação de instrumentos e ruídos, sintetizadores

e efeitos, música concreta e eletrônica. Elementos que compõem uma estética de composição comprometida fundamentalmente com a inventividade sonora em relação às imagens. Uma viagem ao passado através

de sons do futuro.


Estabelecida inicialmente sobre a página de Instagram @cafilasounds, surgiu com a ideia de remontar e sonorizar filmes históricos, vários dos quais foram originalmente silenciosos. Um trabalho artístico de

dar uma nova voz a essas imagens.

 Sons do futuro para imagens do passado
Dezembro 2020 – Maio 2021

Filmes realizados e sonorizados a partir de imagensbrasileiras dos anos 40 até 70.

01.

De Outros Carnavais

A voz do narrador que noticia o Carnaval do Rio em épocas passadas se transforma com a chegada da noite. Loops de instrumentos típicos do samba, como o tamborim e o pandeiro gravados pela percussionista Gabriela Bruel, se misturam com sintetizadores na montagem de uma alucinação carnavalesca.

02.

Colatina - O Brasil entre

os anos 40 e 50

A melodia do clarinete em modo mixolídio, escala comum na música folclórica do interior do Brasil, acompanhada pela viola caipira, instrumento de acompanhamento de cordas metálicas brilhantes tocadas pelo músico Daniel Perez. Evoca tom lírico e nostálgico na sonorização de cenas do país nos anos 40.

03.

Conquista Femininas

Os sons dos foleys propõem a atmosfera do trabalho das telefonistas e do ofício da costura. A aparição do homem em cena conduz a paisagem sonora à uma caverna gotejante que interrompe a música, que vai e vem. Inserções de pontos sonoros acompanham as imagens: o piano, o rugido do animal reduzido à sua pelagem e a música de forró (zabumba e triângulo) intercalado com o choro de crianças.

04.

Ação no Mar

Simulação de clichês hollywoodianos para um filme de uma guerra que não existiu. Na montagem fílmica paralela entre os que atacariam e os que seriam atacados, tímpanos de orquestra dramáticos contrastam com sons dos soldados desajeitados em seus paraquedas caídos que se preparam para a batalha em clima pop.

05.

Celebração em São João del-Rei

Texturas sintéticas que remetem a órgãos de tubo e um canto transformado sobre o texto litúrgico Agnus Dei acompanham uma celebração religiosa cristã no interior de Minas Gerais, em uma localidade que ainda guarda a tradição das orquestras de cordas dentro dos templos. Em meio ao ritual, surge o ruído de uma câmera de cinema que o testemunha.

06.

Banhos de Mar

no Litoral Brasileiro

O timbre do harmônio evoca emoções contrastantes aos clichês musicais que costumam acompanhar as imagens das praias brasileiras. Ainda assim, irrompe a presença sonora das pessoas, dos passos na areia, das bicicletas e dos guarda-sóis que se movem ao vento. Um narrador anuncia o fim das férias e a música é engolida pelas ondas do mar.

07.

Passado Científico

Uma ficção científica realizada a partir de imagens documentais da ciência no Brasil. Para estabelecer a narrativa da tragédia nuclear, a música é composta com base em sobreposições de sintetizadores que se transformam conforme a mudança de cenas, demarcada pela nota grave do piano que reforça os cortes. Mantém o ritmo do filme a série de efeitos sonoros desenhada pelo artista de foley Tulio Borges e pelo editor de som Pedro Osinski, que recriam desde o instrumentário cirúrgico à explosão da bomba.

08.

Enchentes Urbanas

A composição musical é criada com base em uma escala de afinação pitagórica, diferente do padrão da música ocidental atual, o que provoca a sonoridade dissonante aos ouvidos acostumados ao padrão temperado mais vigente. A mixagem, realizada a convite do projeto pelo sonidista hondurenho Homer Mora, prioriza sons da paisagem sonora da enchente que irrompem com potência sobre a música. O ruído é protagônico em sua intenção.

09.

Arte Brasileira e Arte no Brasil

A vitalidade do movimento rítmico no tempo e o jogo espacial possível no espectro estereofônico esquerda-direita é a base da experimentação. A composição conduz os timbres percussivos tradicionais do hi-hat da bateria que dialogam com as sílabas de um discurso vocal fragmentado proferido uma vez pela voz de um homem num museu (era uma leitura do Manifesto Futurista...). Outros timbres percussivos, desta vez transformados, além do baixo elétrico, somam-se ao conjunto entre as variações de cena.

10.

Golpe – Os anos de 1963 e 1964

O narrador prediz um melhor futuro pela via da reforma agrária sobre imagens de trabalhadores do campo que têm seus sons sincrônicos reconstruídos. De súbito são interrompidos pela chegada dos militares, das grandes obras e da industrialização, metaforizados na pesada voz masculina de coro lírico. No entanto, mesmo o que aparenta sólido também pode ruir-se, como o som de gelo quebrando que anuncia uma decaída.

11.

Rio de Janeiro – Cidade, História e Boemia

Com a viagem de bonde, a tessitura polifônica de um contraponto de sintetizadores a três vozes remete a algo de Barroco que nos leva ao centro da cidade do Rio de Janeiro. A música se reduz a uma nota alongada que varia lentamente em textura e dá espaço para o desenvolvimento das imagens e dos sons da cidade. No bar, o samba surge na batucada da mesa, e o mundano se encontra com o etéreo.

12.

Tecnologia, Indústria

e Urbanização

Guitarra e baixo elétricos dão o tom da chegada dos anos 70, onde a música se vale do uso de microfones dinâmicos captando a performance executada através de amplificadores e pedais analógicos de fuzz e overdrive. As guitarras, gravadas por Daniel Perez, são acompanhadas dos elementos frenéticos da paisagem sonora do trânsito e do cotidiano das metrópoles. A microfonia se encontra com as buzinas e os choques automobilísticos. Apesar da eletricidade, há um coração pulsante.

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Cáfila é o coletivo de camelos.

Há vários séculos os camelos cruzam os desertos, ajudando as pessoas no transporte de suas vidas

e suas histórias. São os únicos animais capazes

de resistir às condições extremas do deserto, ao calor

e à falta de água. Escolher esse animal como símbolo

não é em vão. Os filmes que passam por aqui também sobreviveram ao cruzamento do tempo e da história, ainda que muitos tenham perdido parte significante de suas trilhas sonoras pelo caminho, e consequentemente parte significante de suas vozes; agora o que se quer é que esses materiais possam recobrar sua expressão ganhando novos sons. Que possam voltar a ser vistos, e, principalmente, ouvidos.

 

Luiz Lepchak